quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ménage à trois - Capítulo I

Eu disse que ficaria com as duas, na mesma cama, ao mesmo tempo – pelo menos enquanto me interessasse. A loura riu e desdenhou.

– Tu acha mesmo que podes com nós duas? Eu duvido muito.

No fundo eu também duvidava. Andava meio broxa, bebendo demais e com dificuldades em sentir tesão. O problema é que para mim o tesão deixara de ser uma coisa meramente física. Era um conjunto de sensações que exigia um conjunto de interesses, e vinha andando muito exigente nos últimos tempos.

A ruiva falava sozinha no outro sofá:

– Sexo é sempre sexo. Sempre aquela mesma coisa suada e vazia. Só mais uma fuga. Só mais uma fuga...

Parecia não se importar com o fato de eu e a loura também estarmos ali. E, de fato, não se importava. Não se importava com ninguém além de si mesma. Aliás, creio que este era o grande ponto em comum entre nós três, nossa ligação secreta: não nos importávamos com mais ninguém. Éramos egocêntricos e narcisistas. Ah, e como éramos lindos isolados na nossa torre de marfim. Uma versão ao contrário dos Sonhadores de Bertollucci, mas com o mesmo espírito, aquele ensimesmamento absoluto que nos tornava tão diferentes, tão melhores, tão sagrados.

O mundo lá fora não tinha a menor importância. A noite corria solta. Vinhos caros espalhados pela sala. Música clássica ecoando por corredores vazios. A ruiva imersa em si mesma tendo pena do mundo, da vida e dela própria. A loura tentando ferir alguém a qualquer custo, azeda, ácida, irônica, sarcástica; necessitava ferir alguém – nem que fosse a si própria. E eu ali, no meio de duas lindas mulheres, pensando em sexo, pensando em levá-las para a cama. Não, na verdade não era isso. Eu buscava uma paixão. Eu necessitava, desesperadamente, me apaixonar. Precisava de algo que fizesse o meu coração bater mais forte outra vez; precisava sugar a força vital de outra pessoa, pois a minha já acabara. Usando uma expressão do Juliano Guerra, eu queria me entregar a um deslumbramento, qualquer que fosse, só precisava ser intenso. E aquelas duas mulheres ali, lindas, caóticas, confusas, doloridas, machucadas, juntas, eram mais do que eu poderia sonhar. Eu precisava possuí-las, não necessariamente pelo sexo, mas pela paixão. Eu precisava sugar a sua força vital, nem que fosse pelas suas bocetas.

A loura comentou alguma coisa sobre Godard, Le Mepris, Brigitte Bardot. Ela sempre necessitando provar o quão genial e bela era, sempre necessitando expor aos quatro ventos seus conhecimentos sobre cinema autoral, literaturas raras e filosofia clássica. Na verdade, ela era uma farsa. Não que os seus conhecimentos fossem falsos, muito pelo contrário: eles eram admiráveis e encantadores. Mas ela não os adquiriu para si mesma, para seu gozo e deleite; ela adquiriu-os para mostrá-los, exibi-los, para provar aos outros que ela valia a pena, que ela era boa em algo. Isso fazia dela uma farsa, e me fazia pensar que ela realmente não devia valer a pena.

A ruiva continuava ensimesmada. Às vezes dizia alguns comentários soltos, pensando alto, falando sozinha, coisas como “a vida não vale a pena ou eu que não sou suficientemente boa para conseguir vivê-la?”. Ela era mais existencialista que a loura, embora a outra se considerasse filha de Jean-Paul e Simone. Eu queria as duas juntas, mas era muito difícil estabelecer uma ligação entre elas. No fundo, elas se odiavam. Creio que ambas me queriam só para si, enquanto eu queria as duas para mim – ao mesmo tempo. Era um tipo de relação que estava fadada ao sofrimento. Era um enigma sem solução. O equilíbrio entre nós três era impossível. Mas eu queria.

A loura veio sentar-se ao meu lado no sofá, enquanto a ruiva continuava distante, rabiscando coisas em um caderno de capa vermelha.

A loura só queria me amar, mas era inábil e machucava.

– Se você quiser eu posso arranjar um vibrador para todos sairmos satisfeitos do ménage.

Eu olhava nos seus olhos. Eram verdes e cheios de medo. Medo de ser recusada, medo de não ser amada. E uma carência absoluta. Se eu esquecesse o corpo de mulher, cheio de curvas, e me concentrasse apenas em seus olhos, eu veria uma criança assustada. Nesses momentos eu tinha vontade de pegá-la no colo e cantar uma cantiga de ninar. Mas ela percebia a ternura – e a pena – nos meus olhos e se retraía violenta. Levantava-se, pegava outra taça de vinho, três goles longos e ininterruptos e soltava mais algum comentário ácido.

– Com esse olhar de menininho abandonado tu não vai comer ninguém aqui hoje.

Ela sentia pena de si mesma, e sabia que eu percebia. E isso lhe doía profundamente. Não agüentou. Saiu da sala.

Concentrei-me então, na ruiva.

Ela era linda. Também tinha os olhos verdes. Nos anos posteriores à minha convivência com aquelas duas mulheres, muitas vezes tentei definir qual delas era a mais linda. Confesso que até hoje não sei. As duas eram lindas, uma ruiva e outra loura, e eu as amava.

Com uma taça de vinho eu tirei a ruiva de dentro de si mesma. Ela me sorriu surpresa, como se tivesse me encontrado apenas naquele momento, um sorriso que dizia “oi, que bom que tu tá aqui”. Ela era mais silenciosa que a loura. Mais calma e mais serena também. A loura não sabia conviver com os silêncios; irritava-se e logo começava a brigar. Com a ruiva eu sempre tive silêncios confortáveis. Muitas vezes eu passei horas observando-a enquanto ela se perdia em algum deslumbramento interior. Era lindo. Eu podia vê-la caindo bem fundo para dentro de si mesma, e depois escalando lentamente o caminho de volta, até que ela chegava, e me sorria como quem diz “tu ainda estás aí? Que bom.” A presença dela me acalmava. Os olhos verdes dela eram tranqüilos; enquanto os olhos verdes da loura eram inquietos e desconfiados. Dois olhares completamente opostos em olhos praticamente da mesma cor. Eu achava engraçado.

Eu e a ruiva permanecíamos em silêncio, a observar-nos mutuamente. A tranqüilidade dela era linda. Não saberia dizer o que ela pensava sobre mim naquela hora. Ela já havia me observado por tantas horas, tantos dias, tantos meses, tantos anos... Eu não saberia dizer se havia sobrado algo para ela descobrir em mim. Mesmo assim ela me observava com calma e com afinco.

Historicamente sempre houveram poucas palavras entre nós. Mas ela me compreendia muito melhor do que a loura – que sempre exigiu diálogos longos e exaustivos. Eu e a ruiva apenas no deliciávamos com a presença um do outro. Sorvíamos aquela companhia com o mesmo deleite com que sorvíamos aqueles vinhos franceses. Com a ruiva, sempre os vinhos franceses; com a loura, os chilenos.

Não sei quanto tempo se passou – é impossível dizer –, mas a loura voltou à sala.

– É muita consideração de vocês não terem começado a “festa” sem mim.

O clima do ambiente se alterou totalmente. Era como se nós fôssemos três temperos distintos, e para a comida (a nossa relação, convivência) ficar boa era necessário a dose exata de cada um. Caso isso acontecesse, seria um manjar dos deuses. Mas se as dosagens fossem erradas viraria lavagem para porcos.

Era quase impossível acertar a mão.

A loura trocava os canais freneticamente, procurando uma forma empírica de demonstrar toda a sua linda cultura, o seu valor, a sua presença magnífica. Por fim encontrou Gritos & Sussurros, do Bergman, e começou a discorrer sobre a genialidade da fotografia de Sven Nykvist. Eu e a ruiva permanecíamos em silêncio. Nós já conhecíamos Bergman, Sven e a loura. Por fim, ela desligou a tv e calou-se. Aquele era um momento crítico da noite.

Era ali que seria decidido o nosso futuro, o que aconteceria posteriormente – naquela noite e pelo resto da vida.

A ruiva disse:

– Acho que nós deveríamos ir para a cama.

2 comentários:

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