– Eu a amo.
Ele analisava. Pose típica de psicólogo. Mão no queixo. Pernas cruzadas. Óculos abaixo da posição correta. Fala pausada.
– Então por que tu não segues em frente?
Uma provocação. Era assim que ele trabalhava. E eu sabia. Percebia claramente a provocação e seus objetivos. Antecipava a sua análise.
– Pra mim o sexo e o amor sempre foram duas coisas quase opostas, antagônicas. É assustador ver a possibilidade de conciliá-los na mesma mulher.
Era verdade. Eu tinha medo. O sexo vazio era seguro e fácil. Eu o dominava. Eu as dominava. Não tinha nada a temer. Quanto ao amor, eu já havia desistido dele há tanto tempo que nem lembrava mais. Tanto que, quando eu a amei, não soube se já havia sentido aquilo antes, algum dia. Parecia inédito pra mim.
– Mas não é justamente isso que tu procuras? Algo novo? Algo diferente? Algo a mais?
Era. Creio que era. Mas eu tinha medo. Medo do amor. As minhas recordações – remotas – sobre o amor eram de destruição e mágoa. Tragédia. Desesperança. Desilusão. O amor nunca me trouxe nada de bom. E ainda havia aquela certeza, uma premonição absoluta, de que, no momento em que eu me entregasse, ela me abandonaria.
– É. Acho que eu estou em um momento de reconstrução interna. E ela é uma peça chave para que esta reconstrução aconteça.
Mas eu não conseguia vê-la como um objeto – como eu vira todas as outras. Eu a amava – e essa certeza era assustadora.
– Então o que tu tá esperando?! Vai lá, fica com ela! Transa com ela! Te permite amá-la!
Sim, eu queria. Aliás, era o que eu mais queria. Mas não era tão fácil. Eu tinha medo. Eu a conhecia muito bem. Três anos de convivência. Nossa relação era única. Todo aquele desejo contido. Aqueles sorrisos. Aquelas ironias. Aqueles toques sutis. Todo aquele amor desvairado represado por barreiras fracas demais durante todos estes anos. As barreiras se romperam. Não há como manter o controle. E não há como eu explicar isso para ele. Nem para ninguém mais. Apenas eu & ela somos capazes de compreender isso.
– Eu a amo. Sempre a amei. À minha maneira. Creio que a atitude dela com relação a mim é semelhante. Acontece que nós nos conhecemos bem demais e tememos um ao outro. Somos inconstantes...
– Mas o amor de vocês não é constante? Não durou três anos?
(Silêncio)
– O meu sim.
Por mais que eu respondesse por ela, não poderia ter certeza. Ela nunca me deu certeza nenhuma. Ela sempre foi uma incógnita na minha vida.
(Silêncio)
– Sabe, ela me disse que sabe que eu vou estar no casamento dela – ela quer casar –, mas que também sabe que eu não serei o noivo.
– E?
– Não sei o que pensar disso.
Mentira. Eu sabia bem o que pensar; o que sentir. Machucou-me. Eu gostaria de ser o noivo. Na verdade, eu nunca pensei realmente se gostaria de casar ou não; mas sei que não vou agüentar essa vida de escritor degenerado pra sempre. Já comecei alguns processos de reconstrução interna. Acho que sim. Que eu gostaria de casar-me; ter um casal de filhos... talvez com ela.
(Silêncio)
– Tu gostarias de ser o noivo?
– Acho que sim.
– E por que tu não deixas ela saber disso.
– Por que no momento em que ela souber, ela vai me deixar.
Era verdade. Pelo menos era no que eu acreditava.
– E se ela não te deixar?
– Não sei.
(Silêncio)
– O que tu esperas dela?
– Amor.
– Como?
– O quê?
– De que forma? Como tu queres que ela demonstre esse amor? Como tu queres que esse amor se realize?
Eu não sabia.
– Talvez em muitas noites de sexo selvagem. Talvez em um casamento com um casal de filhos. Talvez até mesmo em ambos, na simbiose perfeita – nós, que tão ambíguos somos.
(Silêncio)
– E por que tu não dizes tudo isso pra ela?
– Porque no momento em que ela souber, eu irei perdê-la.
Era verdade. Eu sabia. Tinha certeza.
– Tu estás te bloqueando. Assim tu nunca vais te permitir viveres nada. Tu estás estagnado.
Eu sabia. Mas eu tinha medo. Muito medo. Depois de muitos anos ela era uma possibilidade de amor, e eu percebia que a perderia antes mesmo desse amor se concretizar. Ela era minha. Sempre fora. Mas na verdade não seria nunca.
Eu estava extasiado por amá-la; mas aniquilado pela certeza da tragédia.
– Não importa... nunca importou...
Mentira.
(Silêncio)
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A cultura dos incultos
Por que, atualmente, as aulas em universidades baseiam os seus conteúdos no ritmo de aprendizado de alunos que não teriam a menor capacidade de estar dentro de uma universidade? Visando elucidar este problema, o presente texto irá apresentar algumas questões para reflexão.
Inicialmente, devemos propor-nos a investigar as causas deste fenômeno, que cada vez mais atinge as universidades brasileiras. É possível considerar que o problema advém da necessidade das universidades particulares manterem seus alunos. Os altos preços podem ser pagos apenas por uma pequena parcela da população, sendo que, seria financeiramente inviável para as estas universidades perderem alunos por causa da elevação da qualidade e da exigência em nível acadêmico.
Juntamente com estas questões, podem-se incluir as políticas governamentais – que afetam principalmente as universidades públicas. O governo brasileiro precisa mostrar uma evolução no nível de educação da população para os organismos internacionais. Só que está evolução não se dá na qualificação da educação brasileira, e sim no aumento da parcela da população que tem acesso a uma educação formal. Ou seja, as políticas públicas visam quantidade, e não qualidade. Seu interesse é apenas em termos de números e percentuais.
Tendo em vista estas duas questões básicas – que podem ser desenvolvidas em inúmeras outras –, não é difícil compreender como o Brasil despeja quantidades absurdas de profissionais mal-preparados no mercado de trabalho todos os anos. A política dos números nas instituições públicas, e a política do dinheiro nas instituições privadas, estão carcomendo a educação brasileira de dentro para fora. O resultado disso poderá ser observado daqui a alguns anos, num cenário em que o Brasil terá grande parcela de sua população com uma “boa” escolarização em termos oficiais, mas que ser revelará como o país da educação oca, da ignorância diplomada.
Inicialmente, devemos propor-nos a investigar as causas deste fenômeno, que cada vez mais atinge as universidades brasileiras. É possível considerar que o problema advém da necessidade das universidades particulares manterem seus alunos. Os altos preços podem ser pagos apenas por uma pequena parcela da população, sendo que, seria financeiramente inviável para as estas universidades perderem alunos por causa da elevação da qualidade e da exigência em nível acadêmico.
Juntamente com estas questões, podem-se incluir as políticas governamentais – que afetam principalmente as universidades públicas. O governo brasileiro precisa mostrar uma evolução no nível de educação da população para os organismos internacionais. Só que está evolução não se dá na qualificação da educação brasileira, e sim no aumento da parcela da população que tem acesso a uma educação formal. Ou seja, as políticas públicas visam quantidade, e não qualidade. Seu interesse é apenas em termos de números e percentuais.
Tendo em vista estas duas questões básicas – que podem ser desenvolvidas em inúmeras outras –, não é difícil compreender como o Brasil despeja quantidades absurdas de profissionais mal-preparados no mercado de trabalho todos os anos. A política dos números nas instituições públicas, e a política do dinheiro nas instituições privadas, estão carcomendo a educação brasileira de dentro para fora. O resultado disso poderá ser observado daqui a alguns anos, num cenário em que o Brasil terá grande parcela de sua população com uma “boa” escolarização em termos oficiais, mas que ser revelará como o país da educação oca, da ignorância diplomada.
O Brasil é o país das filas
Pode-se dizer que o Brasil é o país das filas, e talvez o maior exemplo disso seja a fila do SUS. É por isso que hoje ninguém se surpreende quando uma mulher dá a luz nesta fila, socorrida por passante e ignorada por médicos e enfermeiros.
O hospital ali, poucos metros a sua frente, torna-se uma miragem inalcançável na medida em que o sangue vai escorrendo por entre suas pernas. Seu filho vem ao mundo como uma prova da caridade humana, dependendo da boa vontade de passantes despreparados para nascer. Como um Jesus Cristo da pós-modernidade, ele grita alto em alguma rua suja e fétida deste imenso país, mas logo é sufocado pela poluição e pelas buzinas de algum trânsito caótico.
Depois do parto já realizado, provavelmente a fila do SUS humanizou-se um pouco – não por atitude dos médicos, sempre encastelados nos seus uniformes brancos de semi-deuses, mas através da atitude das mesmas pessoas corajosas e de boa vontade que ajudaram uma desconhecida a parir no meio da rua.
O Brasil é o país das filas, e a fila do SUS é provavelmente o melhor exemplo disso. Mas quando uma mulher dá a luz em uma calçada suja, no meio dessa fila, nós percebemos o quão lindo e horrível é o Brasil em que vivemos.
O hospital ali, poucos metros a sua frente, torna-se uma miragem inalcançável na medida em que o sangue vai escorrendo por entre suas pernas. Seu filho vem ao mundo como uma prova da caridade humana, dependendo da boa vontade de passantes despreparados para nascer. Como um Jesus Cristo da pós-modernidade, ele grita alto em alguma rua suja e fétida deste imenso país, mas logo é sufocado pela poluição e pelas buzinas de algum trânsito caótico.
Depois do parto já realizado, provavelmente a fila do SUS humanizou-se um pouco – não por atitude dos médicos, sempre encastelados nos seus uniformes brancos de semi-deuses, mas através da atitude das mesmas pessoas corajosas e de boa vontade que ajudaram uma desconhecida a parir no meio da rua.
O Brasil é o país das filas, e a fila do SUS é provavelmente o melhor exemplo disso. Mas quando uma mulher dá a luz em uma calçada suja, no meio dessa fila, nós percebemos o quão lindo e horrível é o Brasil em que vivemos.
Dia cotidiano
Na Porto Alegre suja e poluída do século XXI é possível passar por mendigos bêbados, enxames de grevistas, assaltantes que não temem a luz do dia e trapos humanos com cachimbos de crack. Pode-se ver tudo isso nos poucos metros que um ônibus velho consegue percorrer no trânsito caótico desta cidade em um dia de chuva. As pichações se confundem com o cheiro de esgoto e com a multidão de desconhecidos, que parecem sem rosto sob a garoa fina.
É por este contexto caótico que um estudante tem que passar todos os dias ao se dirigir do centro à PUCRS. Uma realidade de misérias humana variadas passa lenta pela janela, enquanto no meio do congestionamento eu ouço Gardel no mp4 e penso no café com baunilha que me espera na PUCRS.
Confesso, nunca gostei de escrever crônicas. Sempre fui criticado pela minha falta de consciência social. A miséria nunca me comoveu. Mas o que me incomoda neste trajeto diário é a feiúra. Como escritor, sempre me guiei pelo instinto de beleza; sempre procurei ver a arte no cotidiano. Mas isso parece impossível em dias de chuva, preso no trânsito caótico, em uma cidade suja, podendo ver apenas a miséria pela janela.
É por este contexto caótico que um estudante tem que passar todos os dias ao se dirigir do centro à PUCRS. Uma realidade de misérias humana variadas passa lenta pela janela, enquanto no meio do congestionamento eu ouço Gardel no mp4 e penso no café com baunilha que me espera na PUCRS.
Confesso, nunca gostei de escrever crônicas. Sempre fui criticado pela minha falta de consciência social. A miséria nunca me comoveu. Mas o que me incomoda neste trajeto diário é a feiúra. Como escritor, sempre me guiei pelo instinto de beleza; sempre procurei ver a arte no cotidiano. Mas isso parece impossível em dias de chuva, preso no trânsito caótico, em uma cidade suja, podendo ver apenas a miséria pela janela.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Chuva
Era uma manhã cinzenta. Ele se remexia na cama, embaixo de três pesados edredons coloridos que o sufocavam. A televisão sem som já não tinha mais serventia, pois o dia já havia clareado. Escutava os pingos de chuva batendo na janela, e a claridade que invada o quarto era cinzenta. As costas doíam-lhe. Não encontrava mais posição para permanecer deitado – há quantas horas já estaria dormindo? Levantou-se e foi até o banheiro. Sempre o mesmo ritual ao acordar. Mijou, lavou as mãos, lavou o rosto, escovou os dentes, olhou-se no espelho. Cara inchada, expressão cansada, olheiras. Não importava o quanto dormisse, parecia estar sempre muito cansado, acabado. Era como se tivesse uma ressaca permanente, mesmo sem beber – uma ressaca de respirar.
Passou margarina em dois cacetinhos de três dias e colocou-os no microondas. Comeu-os rápido, antes que virassem pedra. Passava um pouco das dez da manhã. Sentou-se em frente ao notebook. Orkut, twitter, gmail, blog. Amigos virtuais. Os reais, de carne e osso, estavam longe há séculos. Às vezes, em algum momento de lucidez, perguntava-se se eles realmente existiram.
Detestava a televisão. Ficar como um autômato sentado em frente a um gordo qualquer em um domingo chuvoso. Mas as horas que negava à tv, dava quase inconscientemente ao computador. Um outro tipo de automatismo, mais disfarçado, mais sutil, mais culto, mais bonito. Ninguém poderia criticá-lo por estar em frente ao computador – todos estavam. E as horas se esgotavam.
A chuva, o frio, a conexão ruim da internet esgotavam-no. Não sabia se o dia ia realmente escurecendo. Essas tardes chuvosas pareciam-lhe atemporais. Buscava uma distração ou outra no notebook já velho e com o hd esgotado. Assistia os mesmos filmes pela décima-sétima vez. Colocava um tango dolorido para tocar. Revia velhas fotos. Relia velhos textos. Deparava-se com o inexorável e inesgotável Paciência Spider. A noite já era escura.
Novamente embaixo de três edredons coloridos e pesados. O cheiro forte do seu suor já velho nos lençóis que não eram trocados quase nunca. Tinha uma pequena lâmina, fragmento de gilete quebrada a muito custo no banheiro, apertada entre o polegar e o indicador. Apenas sua cabeça permanecia do lado de fora dos edredons, e agora a televisão sem som cumpria a sua função de espantar a escuridão em tons mórbidos e desbotados de azul.
Ele pensava: solidão solidão e mais solidão há quantos anos essa solidão por que ninguém nunca conseguiu se aproximar de mim por que eu nunca consegui me aproximar de ninguém e de que me vale essa vida vazia desregrada de bebedeiras e transas com mulheres estranhas em bares infectos ninguém se importa comigo de verdade ninguém vai realmente sentir falta se eu morrer vão chorar um pouco no enterro para não ficar feio mas no fundo vão se sentir aliviados talvez os meus avós minha mãe minha irmã realmente sintam o resto não o resto nada eu sou nada para eles ai doeu merda não tenho coordenação pra cortar com a esquerda como escorre rápido nem parece vermelho com essa luz da tv será que vai encharcar os lençóis o colchão os três edredons duvido que tenha sangue para tanto é uma sensação engraçada estranha da uma agonia mas não dói é só sentir o sangue saindo saindo saindo e saber que daqui a pouco não vai restar nenhuma gota sinto saudades da minha irmã gostaria de ter me despedido dela e da minha mãe e dos meus avós meu pai também morreu sem se despedir de mim quinze anos de abandono antes dele morrer desgraçado tô ficando cansado com sono será que isso é morrer não consigo mais pensar direito articular as frases direito na minha cabeça vou dormir um pouco só tirar um cochilo embora eu saiba que não é um cochilo e que eu não vou acordar nunca mais.
Passou margarina em dois cacetinhos de três dias e colocou-os no microondas. Comeu-os rápido, antes que virassem pedra. Passava um pouco das dez da manhã. Sentou-se em frente ao notebook. Orkut, twitter, gmail, blog. Amigos virtuais. Os reais, de carne e osso, estavam longe há séculos. Às vezes, em algum momento de lucidez, perguntava-se se eles realmente existiram.
Detestava a televisão. Ficar como um autômato sentado em frente a um gordo qualquer em um domingo chuvoso. Mas as horas que negava à tv, dava quase inconscientemente ao computador. Um outro tipo de automatismo, mais disfarçado, mais sutil, mais culto, mais bonito. Ninguém poderia criticá-lo por estar em frente ao computador – todos estavam. E as horas se esgotavam.
A chuva, o frio, a conexão ruim da internet esgotavam-no. Não sabia se o dia ia realmente escurecendo. Essas tardes chuvosas pareciam-lhe atemporais. Buscava uma distração ou outra no notebook já velho e com o hd esgotado. Assistia os mesmos filmes pela décima-sétima vez. Colocava um tango dolorido para tocar. Revia velhas fotos. Relia velhos textos. Deparava-se com o inexorável e inesgotável Paciência Spider. A noite já era escura.
Novamente embaixo de três edredons coloridos e pesados. O cheiro forte do seu suor já velho nos lençóis que não eram trocados quase nunca. Tinha uma pequena lâmina, fragmento de gilete quebrada a muito custo no banheiro, apertada entre o polegar e o indicador. Apenas sua cabeça permanecia do lado de fora dos edredons, e agora a televisão sem som cumpria a sua função de espantar a escuridão em tons mórbidos e desbotados de azul.
Ele pensava: solidão solidão e mais solidão há quantos anos essa solidão por que ninguém nunca conseguiu se aproximar de mim por que eu nunca consegui me aproximar de ninguém e de que me vale essa vida vazia desregrada de bebedeiras e transas com mulheres estranhas em bares infectos ninguém se importa comigo de verdade ninguém vai realmente sentir falta se eu morrer vão chorar um pouco no enterro para não ficar feio mas no fundo vão se sentir aliviados talvez os meus avós minha mãe minha irmã realmente sintam o resto não o resto nada eu sou nada para eles ai doeu merda não tenho coordenação pra cortar com a esquerda como escorre rápido nem parece vermelho com essa luz da tv será que vai encharcar os lençóis o colchão os três edredons duvido que tenha sangue para tanto é uma sensação engraçada estranha da uma agonia mas não dói é só sentir o sangue saindo saindo saindo e saber que daqui a pouco não vai restar nenhuma gota sinto saudades da minha irmã gostaria de ter me despedido dela e da minha mãe e dos meus avós meu pai também morreu sem se despedir de mim quinze anos de abandono antes dele morrer desgraçado tô ficando cansado com sono será que isso é morrer não consigo mais pensar direito articular as frases direito na minha cabeça vou dormir um pouco só tirar um cochilo embora eu saiba que não é um cochilo e que eu não vou acordar nunca mais.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Tarde de Agosto
Largou a navalha e olhou-se no espelho. Olheiras fundas; expressão cansada. Restos de espuma no pescoço. Há tempos deixara de ser cuidadoso ao barbear-se. Há tempos deixara de ser cuidadoso em várias coisas.
Entrou no banho. Água quente sobre a pele. Vapor entorpecendo-o. A ducha quente sempre clareava suas idéias; parecia espantar o cansaço – pelo menos por uma meia hora.
Lavou o cabelo duas vezes, perdido, alienado. Não se dava conta da realidade. O vapor brumoso do pequeno box parecia transportá-lo para outro mundo. Não pensava; não sentia. Apenas ficava imerso na umidade quente, turva.
Desligou o chuveiro; vestiu-se; saiu para a rua. A garoa fria; os sons agudos; a poluição suja que não se deixava lavar; as imagens do centro imundo de Porto Alegre. Tudo isso o agrediu de uma forma tão violenta que ele chegou a dar dois passos, de costas, para dentro do prédio. A ilusão do banho havia acabado. Ele engoliu a seco e saiu novamente.
O vento e a garoa fina encharcavam o sobretudo e o chapéu de feltro. O dia era nublado, cinzento; e ele ia todo de negro pelo meio da multidão multicolorida, que o atacava com guarda-chuvas afiados e olhares de reprovação e susto. Realmente, mesmo limpo e – mal – barbeado, sua figura não era das melhores. As olheiras, a expressão cansada. Alguma coisa agressiva e triste naquele olhar. E ele ia indo pelo meio da chuva.
Entrou em um café e sentou-se em uma mesa ao fundo. Largou o chapéu e o sobretudo encharcado sobre uma cadeira. Abriu o casaco. O ambiente abafado do lugar o sufocava. Ela observava-o com curiosidade. Apenas quando acabou de acomodar-se e habituar-se ao lugar, ele olhou-a e disse:
– Oi.
– Oi. – Ela lhe respondeu sorrindo.
Ele sorriu também. Eram cúmplices. Amantes; amigos; tudo. Eram tudo um para o outro – o mundo – e nada mais importava.
Dois capuccinos sem chantilly. Planos para ir ao teatro, ao cinema, à livraria. Uma harmonia cálida com cheiro de café. No fundo, não havia necessidade de palavras entre eles. Já haviam se dito tudo anos atrás. Já apaixonaram-se; amaram-se; odiaram-se. E o que restou? Restaram os dois, em um café no centro de Porto Alegre, em uma tarde cinzenta e chuvosa de agosto.
Entrou no banho. Água quente sobre a pele. Vapor entorpecendo-o. A ducha quente sempre clareava suas idéias; parecia espantar o cansaço – pelo menos por uma meia hora.
Lavou o cabelo duas vezes, perdido, alienado. Não se dava conta da realidade. O vapor brumoso do pequeno box parecia transportá-lo para outro mundo. Não pensava; não sentia. Apenas ficava imerso na umidade quente, turva.
Desligou o chuveiro; vestiu-se; saiu para a rua. A garoa fria; os sons agudos; a poluição suja que não se deixava lavar; as imagens do centro imundo de Porto Alegre. Tudo isso o agrediu de uma forma tão violenta que ele chegou a dar dois passos, de costas, para dentro do prédio. A ilusão do banho havia acabado. Ele engoliu a seco e saiu novamente.
O vento e a garoa fina encharcavam o sobretudo e o chapéu de feltro. O dia era nublado, cinzento; e ele ia todo de negro pelo meio da multidão multicolorida, que o atacava com guarda-chuvas afiados e olhares de reprovação e susto. Realmente, mesmo limpo e – mal – barbeado, sua figura não era das melhores. As olheiras, a expressão cansada. Alguma coisa agressiva e triste naquele olhar. E ele ia indo pelo meio da chuva.
Entrou em um café e sentou-se em uma mesa ao fundo. Largou o chapéu e o sobretudo encharcado sobre uma cadeira. Abriu o casaco. O ambiente abafado do lugar o sufocava. Ela observava-o com curiosidade. Apenas quando acabou de acomodar-se e habituar-se ao lugar, ele olhou-a e disse:
– Oi.
– Oi. – Ela lhe respondeu sorrindo.
Ele sorriu também. Eram cúmplices. Amantes; amigos; tudo. Eram tudo um para o outro – o mundo – e nada mais importava.
Dois capuccinos sem chantilly. Planos para ir ao teatro, ao cinema, à livraria. Uma harmonia cálida com cheiro de café. No fundo, não havia necessidade de palavras entre eles. Já haviam se dito tudo anos atrás. Já apaixonaram-se; amaram-se; odiaram-se. E o que restou? Restaram os dois, em um café no centro de Porto Alegre, em uma tarde cinzenta e chuvosa de agosto.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
episódio ilustrativo sobre a incompreensão
Talvez ela só quisesse a minha ajuda. Talvez essa fosse a sua forma, assim meio torpe, driblando o orgulho, dissimulando, talvez fosse a sua forma de me pedir ajuda. Mas eu não a ajudei. Sequer acreditei nela. Já não acreditava no tipo humano há tempos. Aos meus olhos ela fingia, dissimulava, encenava. E eu não tinha mais paciência para encenações. Abandonei-a à própria sorte. Ignorei-a. O resultado foi trágico. Dramático. Sem todo aquele sangue vermelho, cores de Almodóvar, mas quase com o mesmo efeito. Sedativos variados, um coquetel multicolorido, uma overdose. E um pedido de ajuda silencioso ecoando na memória.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Amor (ou Com Toda A Calma Do Mundo)
Andava. Simplesmente caminhava pela rua, sem rumo e sem destino. Chovia. Incessantemente. Pés encharcados, corpo gelado. Pensamento longe. Tentava compreender. Era uma busca, uma jornada interior. Afundava-se em si mesmo cada vez mais, até que o mundo exterior simplesmente deixasse de existir. Não conseguia chegar a um ponto de raciocínio claro; estava confuso e perdido. E ia indo pelo meio da chuva. Pensava que talvez, possivelmente, pudesse haver um meio, que deveria haver alguma forma de redenção, de purificação. Pensava que talvez ele não fosse tão ruim, não fosse tão mau, que talvez pudesse alcançar o reino dos céus ou uma tarde sossegada ou uma torta de maçã. Tinha de haver um jeito. Finalmente chegou em frente a uma porta. Tocou o interfone; voz de mulher o mandou subir. Ele pensava em torta de maçã quando ela abriu a porta. Cumprimentaram-se. Calorosamente, amorosamente, aquela intimidade gostosa e quente de quem já dormiu muitas noites juntos. Ele sentou-se no sofá tirando tênis e jaqueta molhada, enquanto ela lhe estendia uma toalha dizendo qualquer coisa como você-é-maluco-de-sair-andando-pelo-meio-da-cidade-numa-chuva-dessas-vai-pegar-uma-gripe-você-não-se-cuida-seu-louco. Ele ainda pensava na torta de maçã, tarde sossegada, reino dos céus. Vagamente sorriu. Eles sempre foram cúmplices velados, palavras eram desimportantes. Estavam os dois ali, na mesma sala, e havia uma aura de calor entre eles. Ela lhe entregou uma xícara de chá quente e desatou a falar coisas desordenadas e desimportantes. Você-viu-a-crise-no-senado; que-horror-essa-gripe-suína; tem-visto-a-novela-das-oito; parece-que-a-economia-está-se-recuperando. Ele murmurava baixinho reino dos céus, redenção, inferno, perdido. Nunca fora muito religioso, o reino dos céus que buscava era mais como algo filosófico, uma paz interior, um descanso para sua mente atormentada. Tirou as roupas molhadas, vestiu pijama de pelúcia cor-de-rosa com coelhinho na frente, enrolou-se em um cobertor quente e macio e tomou o chá. Reino dos céus, pensou. Ela parecia haver se acalmado; matado a primeira fome de uma companhia outra, que não fosse ela mesma. Agora olhava-o quieta, com olhos grandes de uma curiosidade calma. Ela compreendia que ele lhe contaria tudo; talvez levasse uma noite inteira, talvez uma semana, mas ele se desvelaria para ela, talvez até chorasse, e ela o consolaria, e então, exaustos, iriam dormir, na mesma cama, calor gostoso entre eles, compreensão mútua, talvez se amassem, mas seria tudo calmo e plácido, porque a época de angústias e ânsias entre eles já passara há muito. Ele continuava pensativo. Mas aos poucos foi falando, meio que para si mesmo, como num monólogo. Sabia que ela estava ali, mas também sabia que não havia nenhuma necessidade de interagir com ela, bastava pensar alto, que ela o ouviria, o compreenderia, o consolaria, e talvez até o amasse, um amor quente, carinhoso, quase como se ama uma criança; ele era a criança que havia se machucado, e ela lhe daria colo, secaria suas lágrimas, diria que está tudo bem e o amaria com um sorriso cálido. Ele estava exausto de tantas buscas, tantas desilusões, tanto horror cotidiano. Ela o observava plácida e terna, como uma deusa que em silencio se comove com as angústias mortais. Tentava aliviar o peso dele apenas com sua presença. E ele contava contava contava, deitado no colo dela, adormecido, continuava contando em sonhos, contava-lhe seus pesadelos, e ela se compadecia dele. Tinha impressão que ele continuaria a se revelar para ela mesmo depois da morte. Quando ele se calou ela ajudou-o a ir para a cama, sussurros leves, vem-levanta-vamos-pra-cama-tu-vai-ficar-todo-torto-dormindo-nesse-sofá. Deitaram-se, como sempre, aquela cama já tão familiar aos dois, os corpos um do outro já tão familiares, os cheiros, os gostos, os sons. Suas almas já estavam tão fundidas que seria impossível separá-las. Por fim, dormiram, como tantas vezes já haviam dormido, como tantas vezes ainda haveria de dormir. Com toda a calma do mundo.
sábado, 22 de agosto de 2009
Inevitabilidade
Creio que somos uma inevitabilidade, eu e ela. I-ne-vi-ta-bi-li-da-de. Uma hora ou outra, vamos nos encontrar pelo meio desses nossos caminhos inventados. Encontrar-nos, eu digo, no sentido mais filosófico da coisa – como sempre foi conosco. Palavras distantes, olhos azuis, gatilhos imaginários. E uma infinidade de coisas sem explicação que não fariam e nunca farão sentido para qualquer pessoa outra. É como um mundo paralelo, só nosso, que já esteve à beira do apocalipse muitas vezes. Mas de catarse em catarse, eu percebi que somos meio interdependentes. À nossa maneira – como sempre, tão estranha. As distâncias, os conflitos, tudo o que aparentemente nos afasta um do outro, forma uma espécie de equilíbrio perfeito. Num conceito quase divino de perfeição – tão próprio para nós, que sempre fomos semi-deuses.
Entenda, é complicado tentar descrever, ou mesmo compreender essa nossa relação. É como entrar em um labirinto sem fim. Cada caminho nos leva a um lugar diferente, e os caminhos são infinitos – embora todos acabem em becos sem saída. O que eu tento fazer aqui é um exercício de auto-conhecimento, de conhecimento dela – nós, que sempre fomos tão difusos, que perdemos os contornos fixos quando estamos um perto do outro. Ela, sempre minha inspiração, meu ideal de divindade neste mundo podre, meu duplo, sol, eu que sempre estive perdido na escuridão por vontade própria.
Acho que isso que vivemos agora é apenas mais uma fase, mais um processo, mais um caminho no labirinto. Repito: nós somos uma inevitabilidade. Quer gostemos disso ou não. Nossas almas estão ligadas a nível inconsciente, e esse ligação não será quebrada por nossa vontade ou capricho. I-ne-vi-ta-bi-li-da-de. Nós, que sempre nos orgulhamos de sermos donos dos nossos destinos, aqui nos tornamos escravos dos mesmos. Eu, particularmente, não acho tão ruim. Eu não tenho nada a perder. Mas para ela é uma escolha. Talvez, uma escolha sem escolha.
Entenda, é complicado tentar descrever, ou mesmo compreender essa nossa relação. É como entrar em um labirinto sem fim. Cada caminho nos leva a um lugar diferente, e os caminhos são infinitos – embora todos acabem em becos sem saída. O que eu tento fazer aqui é um exercício de auto-conhecimento, de conhecimento dela – nós, que sempre fomos tão difusos, que perdemos os contornos fixos quando estamos um perto do outro. Ela, sempre minha inspiração, meu ideal de divindade neste mundo podre, meu duplo, sol, eu que sempre estive perdido na escuridão por vontade própria.
Acho que isso que vivemos agora é apenas mais uma fase, mais um processo, mais um caminho no labirinto. Repito: nós somos uma inevitabilidade. Quer gostemos disso ou não. Nossas almas estão ligadas a nível inconsciente, e esse ligação não será quebrada por nossa vontade ou capricho. I-ne-vi-ta-bi-li-da-de. Nós, que sempre nos orgulhamos de sermos donos dos nossos destinos, aqui nos tornamos escravos dos mesmos. Eu, particularmente, não acho tão ruim. Eu não tenho nada a perder. Mas para ela é uma escolha. Talvez, uma escolha sem escolha.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Dia de Chuva
Visitei as ruínas do antigo colégio hoje. O que restou da minha infância, da minha adolescência. O dia combinava perfeitamente com a melancolia exigida para tal ato. Dia cinza, nublado, chuvoso. Eu ia indo pelo meio da chuva, sem guarda-chuva nem capa, apenas uma camisa de flanela tentando me proteger da água gelada que caía do céu. Ato masoquista, muitos diriam, mas eu continuava indo, não me importava, queria aquela dor pra mim. Eu necessitava das lembranças, e sabia que a dor invariavelmente viria junto. A dor da perda. Da perda daquele tempo, daquelas emoções, daquela pessoa que eu fui um dia. A perda de tudo me doía no meio da chuva, e eu ainda nem havia chegado.
Ao lado do velho colégio havia uma catedral. Neste sábado chuvoso e frio de inverno, suas sólidas portas de madeira nobre – importadas da Alemanha – encontravam-se cerradas. Eu olhava fixo para as portas cerradas, parado no meio da chuva. Era como se minha vida fosse uma eterna chuva, e todas as portas estivessem cerradas. Todas elas feitas de madeira nobre, escura e muito dura, e minhas mãos ensangüentadas, ossos quebrados de tanto bater em vão.
Adentrei no colégio. Não era mais o mesmo. Aquelas placas de acrílico, aquela pintura nova em cores berrantes, aquelas grades. Nada daquilo fazia parte do colégio da minha infância. Nada daquilo era meu. Eu era um estranho ali, e sentia aquele lugar me expulsando. Um “vá embora” sussurrado pelo vento nos corredores gelados, antes tão familiares, agora tão estranhos. Andei andei andei, andei centenas de quilômetros, andei até o infinito, e não reconheci nada. O meu colégio não existia mais; aquele que ali estava era outro. O choque da realidade deixou-me zonzo. Não sabia o que pensar. Não sabia o que sentir. Fui embora.
De volta à chuva fria, portas cerradas, sangue, ossos, desespero, desamparo. De volta ao nada, ao vazio, à minha vida. E agora com a certeza excruciante de que um dia a minha memória irá se apagar, e os lugares e pessoas que hoje apenas ali existem, enfim morrerão. E eu morrerei com eles.
Ao lado do velho colégio havia uma catedral. Neste sábado chuvoso e frio de inverno, suas sólidas portas de madeira nobre – importadas da Alemanha – encontravam-se cerradas. Eu olhava fixo para as portas cerradas, parado no meio da chuva. Era como se minha vida fosse uma eterna chuva, e todas as portas estivessem cerradas. Todas elas feitas de madeira nobre, escura e muito dura, e minhas mãos ensangüentadas, ossos quebrados de tanto bater em vão.
Adentrei no colégio. Não era mais o mesmo. Aquelas placas de acrílico, aquela pintura nova em cores berrantes, aquelas grades. Nada daquilo fazia parte do colégio da minha infância. Nada daquilo era meu. Eu era um estranho ali, e sentia aquele lugar me expulsando. Um “vá embora” sussurrado pelo vento nos corredores gelados, antes tão familiares, agora tão estranhos. Andei andei andei, andei centenas de quilômetros, andei até o infinito, e não reconheci nada. O meu colégio não existia mais; aquele que ali estava era outro. O choque da realidade deixou-me zonzo. Não sabia o que pensar. Não sabia o que sentir. Fui embora.
De volta à chuva fria, portas cerradas, sangue, ossos, desespero, desamparo. De volta ao nada, ao vazio, à minha vida. E agora com a certeza excruciante de que um dia a minha memória irá se apagar, e os lugares e pessoas que hoje apenas ali existem, enfim morrerão. E eu morrerei com eles.
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