quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ela

Incrível como uma única palavra é capaz de me desmoronar por inteiro. Não entendo de onde vêm essas toneladas de dramas desnecessários. Uma palavra, um gesto, um sorriso meio errado são suficientes para fazer desabar um torrente de lágrimas sem sentido, choro convulsivo e inexplicável, por desejos ainda mais inexplicáveis. Tentativas vãs de achar alguma lógica, algum sentido na falta daquilo que nunca tive, na ausência desesperadora de uma presença que eu não conheço, embora reconheça, delírios de vidas passadas. "O mundo termina fácil, e a vida recomeça num instante." Traduzir em palavras sentimentos que não compreendo é tarefa árdua, e cada vez mais eu me perco em labirintos de idéias vãs, em caminhos que não levam a lugar algum, sabendo que o único lugar para onde quero ir é - talvez - inalcançável. Loucura desvairada perturba minhas noites, tira meu sono, não me permite descansar nem mesmo em sonhos, loucura desvairada de sentimentos sei lá eu por quê dilacerados... Uma palavra, uma ausência... só isso basta. O mundo cai. Assisto a (re)construção que eu fazia pacientemente de mim mesmo ruir - de novo. Até onde isso vai? Gatilho maldito de emoções que dispara quando eu menos espero. Gatilho maldito de sentimentos, e essa mão invisível, cruel e sempre pronta a acabar comigo. Essa menina tão bela e tão distante, intocável, sempre a dilacerar-me em versos sem rima nem métrica, a retalhar-me em prosa solta e perfeita, a filosofia da (auto)destruição. Ah... todo esse drama disparado de longe, como se fosse perto, como se fosse a queima roupa, chego a sentir o calor, o rubor das faces, o sangue pulsante, a emoção vibrante em cores vivas e olhos azuis. Uma libertação escondida atrás do exagero em pessoa. Uma salvação. Outro drama, lágrimas, desesperos, os eternos círculos viciosos de que me falaste tanto, não há escapatória, é só ilusão, mas nós vamos construindo nossas ilusões cada vez melhor, e acreditamos cada vez mais nelas, e quando se desfazem como bruma ao sol, morremos, um pouco em cada ilusão, e cada vez mais, nossas ilusões andam tão reais, nosssas mortes andam tão profundas, meu Deus, aquela dor forte e funda lá dentro, cada vez mais, de novo e de novo e de novo, em círculos sem fim. Toda essa dramaticidade, nós dois, belos sentimentais desperdiçados, atropelados pelo mundo que nos distancia e nos rouba um do outro. Tempo desgraçado, que não permite horas a mais para nos aproximar, algumas horas extras para nós, não para o mundo, deixa o mundo com seu tempo, dê-nos mais horas, só para nós dois, nosso tempo particular, nosso mundo particular, nossa eternidade em um segundo perdido. Nossa eternidade, sempre tão efêmera, tão frágil, tão fugidia. Mas nossa, e por isso intensa, multicolorida, brilhante. Nossa eternidade perdida em um segundo sem dramas, o segundo que buscamos desesperados no meio de tantas horas inúteis de choros desgarrados e vontades suicidas. O nosso segundo. Tudo por uma palavra disparada sem dó... Tudo por uma emoção na hora errada, numa noite, estirado em uma calçada, quando alguém me disse o seu nome e eu pensei: "ela!" E foi ela desde então, sempre ela, e o drama, e os segundos perdidos, e a eternidade. Depois de tudo, é difícil admitir que, para mim, ela sempre foi uma ausência. E é nessa ausência que sempre esteve a minha redenção. Nas suas palavras distantes, no seu pulso firme dedilhando um gatilho imaginário. No fundo dos seus olhos azuis, como duas poças de água cristalina, como uma passagem para a eternidade. Uma palavra. O gatilho. Ela.

Um comentário:

Alessandra Bessa disse...

Desta vez sou sua fã!!rs
Usou as palavras certas ,escreveu bem....Imagina se vc fosse pessimista e dissesse :"Isso para mim não existe sou realista não acredito em amor!" Mais gostei vc mostrou que acredita em amor...Na energia doa amor platônico!!!