quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Epifania-desabafo

Tive uma epifania brutal hoje, da qual eu não estou conseguindo me recuperar. Chorei horrores, como há séculos não conseguia chorar.

Sabe aqueles desenhos da Disney, onde os personagens param em frente a uma bifurcação, onde um dos caminhos é plano, ensolarado e florido; e o outro é tortuoso, escuro, com raios & trovões? Pois é, hoje percebi que eu escolhi o caminho tortuoso, sei lá eu porquê, escolhas sem escolhas, e eu queria tanto estar no outro caminho, tanto...

Bem, vou contar o que desencadeou a minha epifania.

Tudo aconteceu hoje quando, meio sem querer, por descuido, desatenção ou tédio, sei lá, eu acabei parando no orkut de um velho amigo, o George – que eu sempre conheci como Gê. O Gê foi o meu grande amigo de infância, aliás o meu único amigo de verdade até a sexta série – ou doze anos, tanto faz –, e eu sou muito grato à ele por isso até hoje. O Gê sempre foi o meu grande exemplo de tudo o que eu sempre achei que uma pessoa deveria ser para que fosse uma boa pessoa. Educado, gentil, inteligente culto, sempre disposto a ajudar. Acho que ele foi uma ótima influência pra mim – eu seria bem pior hoje se não tivesse conhecido o Gê naquela época. Mas daí eu entrei hoje no orkut do Gê e fiquei tri feliz, porque ele tá muito bem, tá estudando, viajando,fazendo amigos, levando uma boa vida – como sempre esperei que o Gê fosse levar, ele merece. Me bateu até uma nostalgia, saudades de conversar com o Gê, assistir anime, jogar Playstation e futebol no pátio do prédio. O Gê é um cara de muita sorte, ele merece tudo de bom.

Mas daí eu me toquei de uma coisa. O Gê seguiu pelo caminho bonito e ensolarado, méritos dele – é claro. Mas foi aí que eu me dei conta de que eu segui pelo outro caminho, e o contraste foi muito grande – assim como o choque.

O Gê tem a mesma idade que eu, 21, eu faço aniversário em agosto e ele em outubro. Ambos nos formamos no terceiro ano em 2004. Ambos fizemos vestibular na UFRGS em janeiro de 2005, eu pra Relações Internacionais e o Gê pra medicina, e ambos não passamos. Coisa normal, colégios de interior, essas coisas. Mas daí o que aconteceu? O Gê fez um ano de cursinho e passou em medicina na UFRGS – eu sempre soube que ele ia conseguir, o Gê é o cara – e eu... não fiz nada. Pois é, aí que entra a minha epifania. Pois foi a partir do momento pós-vestibular-da-UFRGS que tudo se encaminhou ao desastre e me trouxe ao momento exato em que me encontro agora. Pela lógica, eu deveria ter feito – também – um ano de cursinho e passado em Relações Internacionais na UFRGS. E o que aconteceu ao invés disso? Uma sucessão de erros grotescos na minha vida. Um semestre de Administração na Unisc, morando numa pensão desprezível em Santa Cruz. Um semestre de Comércio Exterior na Univates, trazido à força pra Lajeado – minhas mudanças sempre foram à força, todas elas –, com direito a trancar cadeiras no meio do semestre & à crises suicidas, cortes nos pulsos, caixas de sedativos com cerveja, depressão profunda, psicólogos, psiquiatras, terapeutas, antidepressivos e todo esse caos. Depois o primeiro semestre de 2006 – estão acompanhando? – de total marasmos, sem nada nem ninguém, apenas Legião Urbana e pilhas de livros do Edgar Allan Poe. E depois jornalismo, Univates, Lajeado, cinco semestres, muitos surtos, muita literatura, eu me afirmando como escritor, uma fuga para Buenos Aires, muita bebida e eu assumindo a minha total decadência.

Vocês acompanharam o quadro, não é? (Desastroso.) Então a pergunta da epifania: Por que eu não fiz um ano de cursinho e fui cursar Relações Internacionais na UFRGS? Sabe, eu teria sido feliz sendo um estudante de Relações Internacionais da UFRGS. Sabe, naquele tempo, do ensino médio, terceiro ano, formatura, cursinho, essas coisas todas, naquele tempo eu queria ser diplomata. Por isso Relações Internacionais. Acho que se eu realmente cursasse, além de ser feliz, depois de alguns anos eu realmente conseguiria entrar na escola do Instituto Rio Branco. Eu sempre fui meio inteligentezinho, e com umas forças de vontade aqui e ali, as coisas dariam certo – não é idealização, eu sei que dariam, uma espécie de realidade alternativa, universo paralelo. E eu tenho certeza que eu também seria muito feliz na minha vida de diplomata. Sonhos adolescentes com tudo para se realizarem. Mas então por que eu não fiz a droga do cursinho depois do terceiro ano?!

(Observação: Ok, agora eu vou fazer uma coisa que não se faz, mas que se tornou inevitável diante da situação: eu vou culpar alguém. E não serei eu mesmo. Se tens problemas com isso, pare de ler agora.)

A culpa é da minha mãe. Veja bem, eu não costumo culpar a minha mãe. Eu gosto muito da minha mãe, e eu sei que ela já fez vários sacrifícios por mim, mas nesse caso, a culpa é – quase – inteiramente dela. E a culpa dela se dá em um fato empírico, inegável e que independe de interpretações: ela não quis pagar o cursinho. E o ato de não pagar o cursinho me jogou com a cara no chão do caminho tortuoso e fechou as portas do caminho ensolarado pra mim. Aquilo foi o começo de todo o caos já citado acima, que foi a minha vida nos últimos anos. Aquilo originou toda a depressão, todos os surtos psicóticos, toda a descrença e, por fim, me jogou de corpo & alma no mundo dos livros – a única fuga que me restou.

Se hoje eu sou um escritor decadente, bêbado, que não acredita no amor, nem nas pessoas, nem em nada, que mora sozinho com um gato e decorações estranhas, que é anti-social e não gosta de quase nada, a culpa é, invariavelmente, da minha mãe.

Ok, já desabafei.

Eu ainda estou me recuperando de todas essas percepções repentinas e não tenho mais nada a dizer por enquanto.



P.S.: Desculpem pelos erros de português, não tenho cabeça pra revisar isso agora.

P.S.II: Gê, muita sorte pra ti, porque tu merece. Tu ainda vai ser um grande cara, mais do que agora, eu sei disso. Abraço.

5 comentários:

Samla disse...

todo mundo tem uma segunda chance. e, pode ser que daqui a pouco tu dê de cara com uma nova bifurcação, e aí vai poder escolher o caminho ensolorado. quem duvida?

Indira disse...

Concordo com o comentário anterior, mas além disso...
Já pensou que talvez hoje a tua mãe te paria um cursinho e você poderia cursar relações internacionais na UFRGS...
Não, você não me conhece e mesmo que eu vá a Lajeado ao menos duas vezes no ano você provavelmente nunca vai me conhecer.
Mas, eu conheço um pouco de você.
E posso lhe garantir que se dar conta da decadência que está é se afundar mais na area movediça que é o caos da tua vida, se você não fizer alguma coisa para voltar, ou chegar atravessando uma floresta, que te separa do caminho ensolarado.

Beijos

Crazy Mary disse...

Cara, é por isso que eu adoro tudo o que vc faz. Eu ri, sem querer, qd vc disse que a culpa é da sua mãe. Parecia eu falando rs.
Até desabafando tu é bom.
Beijo.

Alessandra Zelinda Bessa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
emersonmathias disse...

Sei perfeitamente do que falas. Da culpa da mae (sempre elas), de nossos caminhos...to contigo! A epifania e a depressao caminham juntas, sempre. Eh o preco que se paga pelo conhecimento de si mesmo. E a cada dia, uma nova trilha na noite escura.