domingo, 18 de janeiro de 2009

Noite

Dois filetes. São sempre dois filetes. Fumaça saindo em par da ponta do incenso. E a solidão. Sem par algum. Três plantas quase murchas, semi-mortas, e um gato jovem demais, agitado demais, vivo demais. Tudo isso tentando ocupar espaço no apartamento vazio. No coração vazio. Ilusões. Esperanças forjadas. Sabe, tem aquela menina tão bonita e tão inteligente quê. Três dias de chuva, ininterrupta. Frio em pleno verão. Calça de abrigo, blusa de moletom. Cama vazia, a não ser pelo gato, que se aninha em meus cabelos compridos, sobre o travesseiro. Frio. Edredons com o meu cheiro e o de mais ninguém. Um dragão de bronze, uma carranca argentina, uma estatueta de São Jorge, peças de artesanato em ferro e taquara. Incensos. Um prato de sal grosso, marinho, embaixo da cama e um gato. Apartamento vazio cheio de fantasmas. Eu durmo com um terço enrolado no pulso esquerdo, sabia? E aperto bem forte o crucifixo dentro da mão. Cruz: instrumento de tortura. O ank que eu carrego pendurado no pescoço eu tiro pra dormir. Dormir: nunca à noite. Fantasmas, sabe. Assombrado por mim mesmo. Pantufas grossas. Pretas, peludas. Imitando uma pantera. Olhos verdes, a pantufa, a pantera. Um tango ao fundo. Depois o silêncio. O incenso quase no fim. A noite se rendendo. O cansaço. Mais uma noite. Estômago doído, olhos pesados. Mais uma noite.

3 comentários:

Alessandra Bessa disse...

É a solidão!É bom as vezes ,nos faz refletir ,nos manda para outra dimensão ,é nessa hora que encontramos o nosso eu ,ficamos cara cara com ele !!rs

Carla disse...

Todas as noites são iguais.

Samla disse...

a solidão da noite é om para refletir sobre quem nós somos e o que fazemos