quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Esta é a minha vida

É essa coisa de se entregar alucinadamente aos desejos, sabe? É esta agonia de sentir. Tudo isso me parece agora tão desnecessário.

Sinto a água correr. Primeiro pelos cabelos. Depois pelo corpo todo. Lavando minha alma. Meus pecados indo embora pelo ralo em um dia de verão. A água lava os cheiros, os gostos, as lembranças. O vapor quente entorpece. Um banho para limpar-se. Para esquecer-se dos outros e de si mesmo. E ser. Apenas apreciar, em sua plenitude, o fato de existir, ali, embaixo d’água, em meio aos vapores brumosos do banheiro de azulejos beges.

Saio do banho e tomo uma xícara de café sombrio. Foi-se a pureza. A realidade violenta-me em minhas intensidades.

Ainda sinto o cheiro da pele molhada. Até quando? Logo vai se perder neste universo de artificialidades que tenho que criar para sair à rua. Só mais uma fantasia. Só mais uma máscara. Só mais um dia. E outro e outro e outro.

O telefone me agride no silêncio do quarto. Não atendo. Apenas fico ali. Imóvel. Não sendo. Um corpo vazio e oco. Apenas um objeto no meio do quarto, quebrando a harmonia do lugar. Até o telefone cessar e o silêncio me trazer de volta.

Saio. O bafo quente e sujo é como um soco na cara. Desejo desesperadamente voltar para baixo d’água, para o meu banho purificador, onde eu poderia ser. E esquecer. Não volto. Pego o ônibus. Vou à lugares. Encontros pessoas.

Volto pra casa. Não lembro de nada. Nada faz sentido. Nada tem importância. Preciso desesperadamente de um banho. Tiro minhas roupas. O sono me derruba primeiro. Durmo o sono pesado dos mortos.

Uma mão suave toca meu rosto. Um olhar doce vem ao encontro do meu, ainda atordoado pelos pesadelos dos quais não me lembro. Um beijo macio me faz dormir. Ela deita-se ao meu lado. Quem é ela?

Acordo. Já é noite. Será que hoje é sábado? Os dias têm passado tão corridos ultimamente. Vou à cozinha. Tomo um copo de água enquanto a angustiante cafeteira vomita lentamente pingos de café. Quase lembro-me de um sonho com uma leve estranha.

Preparo o café com canela e chocolate-em-pó. Pego morangos na geladeira. Sento na sala. Abro o livro que estava embaixo do controle-remoto. Tomando café-com-canela-e-chocolate-em-pó e comendo morangos, eu leio: “Tanto sangue dentro do meu derramado coração, era assim? Talvez fosse, mas não se trata disso. Lamúria insuportável, o corpo, esse que se arrasta com suas carências. Não precisa pressa, calma lá. A porteira está fechada para quem quiser passar, era isso? Já te disse que não responderei. Quero saber, e depois?

Tomo um banho. Desta vez não é místico. Só água correndo sobre o corpo. Lavando aquele monte sujo e inútil de carne e pêlos. Visto-me, perfumo-me e saio. Pela noite.

É então que encontro aquela linda menina de longos cabelos louros, vestida em sedas e cetins roxos púrpuras lilases. Ela dança suavemente enquanto entoa mantras indianos. Parece que está em transe.

Já no apartamento dela, aquela Índia perdida no meio da selva urbana, ela me diz que o sexo não deve ser selvagem. Deve ser a união do Divino que há nela com o Divino que há em mim. Deve ser sublime. Senão é coisa de bicho, de animal. Sem sentido nenhum. Só carne entrando e saindo de outra carne. Entre sedas e cetins e mantras indianos, nós unimos os nossos Divinos.

Saio de lá leve como uma pluma. Pareço estar pisando em nuvens. Cheiro à incenso e não à sexo. Sinto-me... sublime. Não me lembro, em nenhuma outra noite da minha vida, de ter dormido tão bem. Pela manhã, quando acordo, não tomo um copo de vodka e abro a janela para o sol entrar.

É incrível como os dias sempre me passaram em branco. Se eu fosse escrever um livro sobre mim, eu só me lembraria das noites. Parece até que minha vida não teve nenhum dia. Foi sempre uma sucessão de noites. Semanas, meses, anos, décadas... de noites.

O último dia de que me lembro, foi aquele em quê.

O pote de sorvete derretido. A xícara de café frio. Estrelas no céu. Sometimes I feel so happy Sometimes I feel so sadSaudades no coração. Dor de cabeça na mente turva e confusa.

Sabe, eu preciso de uma razão. Pra viver. Pra ser alguém diferente de quem eu sou. Pra vestir outra fantasia e sair à rua de novo. Pra vestir outra máscara-e-óculos-escuros e sair ao sol de novo.

É impossível ser feliz. É impossível ser livre. É impossível ser algo diferente disto tudo quê.

Ando ando ando e não sou atropelado. Às 5 da madrugada não há balas perdidas. Um gato preto cruza o meu caminho, como um sinal divino, abençoando a minha existência escura.

Tudo piração, tudo bode, saca? “O tal de inconsciente coletivo...

Amanhã não vai ser diferente. Todos os dias – ou noites – são sempre uma sucessão de coisas diferentes que ao final acabam no mesmo lugar. “A ordem dos fatores não altera o produto.” E os fatores são sempre os mesmos.

Bebo o sorvete derretido com o café frio.

All you need is love, gin and tonic.”, vejo escrito em algum lugar. Compro um gim com tônica. Na falta de amor, pago por um pouco de sexo.

A vida é um eterno círculo vicioso. Alguns vícios são bons. Outros são meus.

Vomito o sorvete frio e o café derretido.

I’ll be your mirror Reflect what you are in case you don’t know I’ll be the wind, the rain and the sunset The light on your door to show that you are home

Já cansei de fugir. Já cansei de tentar tudo de novo outra vez.

Pego a garrafa de vodka escondida atrás da lata de biscoitos. Saio e compro bolinhas brancas. Vejo bolinhas coloridas. Vejo cores na chuva. Vejo arco-íris nas poças de lama. O s carros passam e me molham, mas eu continuo quente e ardido. Caio na calçada. Deito e durmo. Alguém me leva pra casa e fecha as cortinas para o sol quase não me acordar. “Thank you, my friend.”

Sei lá pra que tudo isso. Não importa mesmo.

Mais dias em branco. Mais noites de caos. “Tudo isso tem que ter um sentido!”, eu penso.

Dançar dançar dançar. O mundo sem música não tem graça.


E digo mil vezes: não

Quero tudo isso de novo e

De novo e de novo! Não

Quero escrever. Não

Quero beber. Não

Quero sair. Não

Quero dormir. Não

Quero dançar. Não

Quero amar. Não

Quero viver.

Tudo o que eu quero é ser:

O que eu não sou.

Ou morrer:

Pela vida que sempre quis ter,

E que nem mais consigo ver.


Então eu pinto o que ninguém consegue ver de preto, e saio. Sigo adiante, sempre em frente, direto para onde não quero ir.

E daí vem todo mundo me perguntar “Pô, cadê a tua espiritualidade?”, e dizer “Deus salva, Deus salva!”, e eu digo: Estou muito bem aqui.

Eu cheguei a uma conclusão: eu sou um conjunto de exageros. Um conjunto de intensidades por demais intensas para conseguirem formar uma harmonia.

Mas se o exagero é pura comparação: o que sou eu? Não quem. O quê?

Sinto como se quase soubesse quê.

Eu poderia ser um bilhão de coisas, mas não poderia ser quem eu sou. Não deveria, ao menos.

Como é que uma pessoa pode ser?

Sabe, ser é só um conceito. Na verdade, tudo são apenas conceitos. A realidade não existe.

Certo e errado. Bem e mal. Céu e inferno. É tudo ilusão.

Nossas mentes pervertidas e desvirtuadas precisam de uma certa ordenação lógica para que possamos fingir não ser apenas animais estúpidos e degenerados.

E isto: animais estúpidos e degenerados: isto somos nós: todos nós.

A culpa é anti-natural.

Eu não sinto culpa por nada. Pelo menos, não deveria.

Medo é instinto. Medo é sobrevivência. Medo é a realidade nos dando um soco na cara.

O medo é assustadoramente real. Tanto, que dá medo.

O amor eu não sei: eu só ouço falar.

As dores são psicológicas.

Psicologias fracas têm mais dores. Psicologias insensíveis também.

Quem foi o idiota que convencionou que ser insensível é ruim?

Pessoas que têm muitas dores são pessoas que possuem um excesso em comum: a falta. Lhes falta tudo: principalmente elas mesmas. E os outros. A partir daí o mundo desaba. Geralmente estas pessoas acabam por suicidarem-se. “Love is a battlefield.” Or a butterfly. Or... something like... the death.

Saí pela noite em busca de. Não há nada de realmente importante, ou interessante, a ser buscado durante o dia.

Na noite está o caos: no caos estão todas as respostas. A questão é: quais são as minhas perguntas?

Eu deveria estar fazendo.

Por que tudo acaba sempre em uma eterna sucessão de “por quês”?

Corro desesperadamente em meio à chuva da noite sem estrelas.

Desespero.

É o sentimento elementar.

É o que move o mundo.

Me desespero. Me movo. Eu sou o mundo. E “Eu saúdo o Divino que há em mim.” Mas já é tarde demais. Eu estou perdido. O mundo está perdido. O desespero absoluto seria o caos completo. E é no caos que estão todas as respostas. E assim eu renasço.

Levanto. Escovo os dentes. Tomo banho. Visto uma fantasia. Visto uma máscara. Coloco os óculos escuros. Saio para o mundo. Esperando não despertar de novo. Ou.

3 comentários:

Ryan Mainardi disse...

Para quem tiver paciência de ler: filosofias e desesperos perdidos em meio a um conto...

Lili disse...

Eu li. Todo ele. Viajei muitas vezes junto contigo moço.
É o desespero, é o sufoco, é o soco no estômado, é o gosto amargo na boca que nem sorvete ou morangos consegue tirar.
É o ato de olhar e sentir que aquele momento é tão perfeito quanto um arco-íris.
É o conflito masi antigo que exite.
Love is a battlefield sim.
E existem infinitas pessoas que lutam.
Pelo bem maior ou.

Lili disse...

*estômago
*mais
*existe

O que a pressa não faz.