quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Chuva

Era uma manhã cinzenta. Ele se remexia na cama, embaixo de três pesados edredons coloridos que o sufocavam. A televisão sem som já não tinha mais serventia, pois o dia já havia clareado. Escutava os pingos de chuva batendo na janela, e a claridade que invada o quarto era cinzenta. As costas doíam-lhe. Não encontrava mais posição para permanecer deitado – há quantas horas já estaria dormindo? Levantou-se e foi até o banheiro. Sempre o mesmo ritual ao acordar. Mijou, lavou as mãos, lavou o rosto, escovou os dentes, olhou-se no espelho. Cara inchada, expressão cansada, olheiras. Não importava o quanto dormisse, parecia estar sempre muito cansado, acabado. Era como se tivesse uma ressaca permanente, mesmo sem beber – uma ressaca de respirar.

Passou margarina em dois cacetinhos de três dias e colocou-os no microondas. Comeu-os rápido, antes que virassem pedra. Passava um pouco das dez da manhã. Sentou-se em frente ao notebook. Orkut, twitter, gmail, blog. Amigos virtuais. Os reais, de carne e osso, estavam longe há séculos. Às vezes, em algum momento de lucidez, perguntava-se se eles realmente existiram.

Detestava a televisão. Ficar como um autômato sentado em frente a um gordo qualquer em um domingo chuvoso. Mas as horas que negava à tv, dava quase inconscientemente ao computador. Um outro tipo de automatismo, mais disfarçado, mais sutil, mais culto, mais bonito. Ninguém poderia criticá-lo por estar em frente ao computador – todos estavam. E as horas se esgotavam.

A chuva, o frio, a conexão ruim da internet esgotavam-no. Não sabia se o dia ia realmente escurecendo. Essas tardes chuvosas pareciam-lhe atemporais. Buscava uma distração ou outra no notebook já velho e com o hd esgotado. Assistia os mesmos filmes pela décima-sétima vez. Colocava um tango dolorido para tocar. Revia velhas fotos. Relia velhos textos. Deparava-se com o inexorável e inesgotável Paciência Spider. A noite já era escura.

Novamente embaixo de três edredons coloridos e pesados. O cheiro forte do seu suor já velho nos lençóis que não eram trocados quase nunca. Tinha uma pequena lâmina, fragmento de gilete quebrada a muito custo no banheiro, apertada entre o polegar e o indicador. Apenas sua cabeça permanecia do lado de fora dos edredons, e agora a televisão sem som cumpria a sua função de espantar a escuridão em tons mórbidos e desbotados de azul.

Ele pensava: solidão solidão e mais solidão há quantos anos essa solidão por que ninguém nunca conseguiu se aproximar de mim por que eu nunca consegui me aproximar de ninguém e de que me vale essa vida vazia desregrada de bebedeiras e transas com mulheres estranhas em bares infectos ninguém se importa comigo de verdade ninguém vai realmente sentir falta se eu morrer vão chorar um pouco no enterro para não ficar feio mas no fundo vão se sentir aliviados talvez os meus avós minha mãe minha irmã realmente sintam o resto não o resto nada eu sou nada para eles ai doeu merda não tenho coordenação pra cortar com a esquerda como escorre rápido nem parece vermelho com essa luz da tv será que vai encharcar os lençóis o colchão os três edredons duvido que tenha sangue para tanto é uma sensação engraçada estranha da uma agonia mas não dói é só sentir o sangue saindo saindo saindo e saber que daqui a pouco não vai restar nenhuma gota sinto saudades da minha irmã gostaria de ter me despedido dela e da minha mãe e dos meus avós meu pai também morreu sem se despedir de mim quinze anos de abandono antes dele morrer desgraçado tô ficando cansado com sono será que isso é morrer não consigo mais pensar direito articular as frases direito na minha cabeça vou dormir um pouco só tirar um cochilo embora eu saiba que não é um cochilo e que eu não vou acordar nunca mais.

4 comentários:

Samla disse...

tu faria falta.

Alessandra Zelinda Bessa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pam disse...

eu disse que eram bizarros ^^

Alessandra Zelinda Bessa disse...

a televisão sem som já é um bonito quadro