terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Um história sobre traças

Eu estava sentado na privada observando as traças. Foi assim que aconteceu. Exatamente assim. Eu sentado sozinho – solitário – no meio daquele banheiro de azulejos muito claros e traças andando pelo chão. Aqui em casa têm muitas traças, você sabe. Mas não são daquelas traças compridinhas, que vivem nos armários e comem as roupas. As traças aqui de casa são diferentes. Elas têm a forma de um losango, e são levemente duras. Há uma espécie de verme dentro do losango, uma minhoquinha – viste, o losango levemente duro é só uma carapaça, como um caramujo –, e essa minhoquinha, às vezes, ao se deparar com um obstáculo, some para dentro do losango levemente duro, e algum tempo depois ela aparece do outro lado, e começa a andar para onde antes seria atrás. Tu não achas isso genial? Eu passei muito tempo observando estas traças aqui de casa. Elas vivem no meio da poeira. E aqui em casa sempre teve tanta poeira, você sabe. Não que eu seja relapso com a limpeza – eu sempre fui chato com limpeza, você lembra? –, mas há muita poeira. E traças. Antes eu achava que as traças nasciam da poeira – talvez nasçam –, mas agora eu acho que elas é que tecem a poeira, assim como as aranhas tecem as teias. Sempre há várias traças losangulares perto daquelas bolas de poeira pelo chão. Eu me admiro do gato ainda não ter comido nenhuma. Ah, não te contei? Agora eu tenho um gato. O nome dele é Morisco – você se lembra do El Morisco, o baixinho mexicano? Mas deixa eu te contar, no começo, quando o gato veio pra cá, bem novinho, ninguém sabia se era gato ou gata, então ninguém sabia se chamava de Morisco ou Morisca. Foi incrível, cada pessoa que chegava aqui dizia uma coisa diferente. O coitado do gato trocou de sexo umas cinco vezes. No pet shop até colocaram fitinhas cor-de-rosa nas orelhas dele, acredita? Mas agora ele cresceu e definiu-se: é, de fato, um gato. El Morisco. E não corre atrás das traças. É bem preguiçoso. Dorme boa parte do dia e da noite. Mas eu tava te contando do momento em que eu estava sentado na privada observando as traças. Foi aí que eu lembrei. E essa lembrança me trouxe tantas outras coisas, arrastou, como uma correnteza, uma série de outras lembranças que eu não queria lembrar – ou queria? Mas o fato de lembrar fez com que eu sentisse de novo, latejante, como uma velha ferida de guerra prenunciando um temporal. Eu escancarei a janela e abri os dois braços bem altos em direção ao céu, eu queria aquele temporal todo pra mim, aquela ventania me enregelando, aquela chuva me molhando, aquela energia de renovação. Você se lembra quando eu, bêbado, saí pra caminhar no temporal, pra absorver as energias? Caminhei meia hora embaixo daquela chuva torrencial e depois passei um mês doente. Quase peguei uma pneumonia. Você se lembra? Eu não tinha jeito mesmo. Sempre teimoso e cabeça-dura. Meu pai me chamava de cabeça-de-martelo – uma das únicas coisas que eu me lembro dele –, vai ver era por isso. Mas daí, durante o temporal, tudo foi se agravando. A tarde ficou cinza e aquela lembrança foi latejando cada vez mais, como se ainda fosse um fato – e não era? Sabe, eu considero essa distância um fato, um acontecimento, quase um objeto, algo empírico, que eu quase posso tocar, essa distância entre nós. Eu aqui, com traças losangulares & El Morisco. Você aí, distante. A lembrança inicial, latejante, que causou tudo isso, não era uma lembrança assim tão importante. Era corriqueira até, dessas que você tem milhares iguais durante a vida, e não dá muita bola. Poderia ter sido a lembrança de um fim de semana chuvoso, entre as cobertas, assistindo filmes e comendo chocolates; ou poderia ter sido a lembrança de uma viajem, talvez a praia, talvez a serra, a Argentina ou o Uruguai; ou poderia ser a lembrança de alguma noite intensa de sexo desvairado, blues, rosas, corselet & cinta-liga, morangos. Mas foi uma lembrança simples, singela até, comum. Me lembrei de você dormindo. Quantas noites dormi com você, foram meses – anos talvez? Mas me lembrei de você dormindo e aquilo criou um abismo tempestuoso dentro de mim. Pisei na traças, afoguei-as com álcool. Joguei o gato para longe da minha cama, com raiva, nem me lembro mais o seu nome – seria algo espanhol? Mas depois tudo se acalmou, e a compreensão veio lenta, como a calmaria após o temporal, quase ao mesmo tempo. Você me fazia falta. Era isso. Esse era o abismo. As traças, El Morisco, o temporal, tudo era distração. Eu não percebia, não queria perceber, mas você me fazia falta. E essa falta era latejante, como velha ferida de guerra em dia de chuva. Talvez fosse isso: sua falta era uma ferida. Em algum lugar do peito, por baixo das costelas, uma ferida que latejava em descompasso com a pulsação que havia ali dentro. Quis te trazer de volta. De alguma forma assim meio incoerente, inconseqüente – como eu sempre fui. Mas já era tarde. As traças estavam mortas, o temporal passara & El Morisco me odiava. E você não voltaria nunca mais.

6 comentários:

Alessandra Zelinda Bessa disse...

Que loucura ,vc lembrar de quem gosta olhando pra traças!rs

Anônimo disse...

Nunca mais?

Samla disse...

incrível, não há nada que tu escreva que eu não goste.

vanessa disse...

também tem essas traças estranhas aqui em casa, em lajeado. e eu também sempre achei que elas nascessem da poeira. meu quarto é roxo e foi meu pai quem pintou. ele passou o rodo em cima de uma traça. ela vai ficar ali, grudada na parede, pra sempre.

mas enfim...elas não me fazem lembrar coisa alguma.
o que, num todo, me deixa feliz.

Pam disse...

traças são nojentas.

e eu gostei, o texto está muito bom. mesmo.

Liege Marla disse...

Adorei tua crônica, só não gostei de ter matado as tracinhas e de ter jogado o gatinho...hehehe!! Quanto ao teu amor, vai atrás dele cara, a vida é muito curta. Boa sorte e um abração! Ah! temos um amigo em comum... o grande Pedro Marodin!