domingo, 28 de dezembro de 2008

Matadouro

Eu cresci no interior, na casa dos meus avós. Tudo muito bonito, muito calmo, muito bucólico. E eu com a alegria infantil de quem não conhece a sujeira e a miséria das cidades grandes. No máximo um passeiozinho em Arroio do Tigre ou Sobradinho, cidadezinhas bucólicas da serra gaúcha. Ir ao supermercado dos parentes do meu avô. Tudo assim. Minha avó muito simpática e boa cozinheira, meu avô trabalhador e que ia tarrafar comigo no rio à noite. Vila Tamanduá é o nome do lugar. Ainda existe, exatamente do mesmo jeito, mas não aparece no Google Maps, já procurei. Mas talvez o mais marcante daquela minha infância bucólica tenha sido o sangue. Eu sempre fui carnívoro por natureza e sempre gostei do sangue. Até hoje, como carne de gado crua sempre que posso. E que se foda a febre aftosa. O que essas pessoas urbanóides que nasceram, cresceram e sempre viveram apartamentinhos e indo aos hiper-mercados não conseguem entender é como o contato com o sangue é uma coisa linda e natural. É mágico. Minha santidade particular, o sangue. Naquela vidinha de interior, meio do mato, final dos 80, começo dos 90, meu avô tinha um irmão que era açougueiro. Na verdade ele tinha um mercadinho na Vila Tamanduá, mas o que dava lucro mesmo era o açougue. Era o único da vila, e todos aqueles descendentes de nobres alemães & italianos que por décadas derrubaram árvores & mataram onças para construir aquele paraíso no meio do nada não poderiam ficar sem o seu santo churrasquinho de todo domingo. Mas eu estava falando do meu tio-avô açougueiro. Ele tinha um matadouro. Ficava em cima de um rio, e para chegar lá ele descia por uma estradinha que passava em frente à casa dos meus avós. Era bem perto, o matadouro. Dava pra ouvir lá de casa os berros dos bois agonizantes quando eles demoravam para morrer. Como todo bom moço criado no interior, o contato com o sangue era algo normal para mim. Limpar peixes, matar galinhas. Uma vez um ganso me mordeu. Com ajuda da minha destemida avó, que capturou os bichos, eu realizei minha vingança. Com uma machadinha eu decapitei os treze gansos que haviam lá. Eu adorava ver o sangue correr. O cepo ficou encharcado. Eu me sentia um carrasco medieval. E haviam também as tradicionais carneações de porcos, que seguiam quase o mesmo processo do matadouro de bois, mas que visivelmente não provocavam o mesmo efeito psicológico em mim. Com os porcos o processo era simples. Matava-se o porco. Então abriam-no, retiravam os órgãos, esquartejavam-no, limpavam os intestinos, moíam a carne do porco & faziam lingüiça. Basicamente tiravam as tripas de dentro do porco e colocavam o porco dentro das tripas. E meu avô às vezes ia ajudar no matadouro. Ele era muito bom em tirar o couro dos bichos. Tinha uma faquinha de estimação própria para isso. E tinha um irmão, italiano e muito católico, que comia as negrinhas que iam trabalhar em sua casa e matava bois. Uma vez um boi fugiu. O meu tio-avô, popularmente conhecido nas redondezas como “Tio Chico”, foi atrás dele com um pedaço de pau. Ele bateu com aquele pau em uma das canelas do boi. O osso se quebrou e o pé ficou pendurado pela pele. E o Tio Chico fez o boi andar por quilômetros até o matadouro mancando em cima daquele osso. Era um grande cara, o Tio Chico. Um dia ele matou um cara com um dois tiros: um no meio da testa e um no coração. Sinto saudades do Tio Chico. No matadouro as coisas funcionavam assim: os peões amarravam cordas no boi – ou na vaca, dependendo da ocasião –, cordas nas quatro patas e na cabeça, e ficavam segurando. Então vinha alguém e dava uma facada no pescoço do boi, na jugular. Geralmente era o Tio Chico, ou um peão que já era experiente no negócio. Então eles esperavam o boi sangrar até a morte. Era um espetáculo lindo. Aquele sangue vermelho e quente jorrava, o piso de concreto ficava todo vermelho. Tudo muito colorido, tudo muito vivo, exceto o boi, que ia morrendo. Às vezes eu ia pelo lado do rio e via o sangue caindo como uma cachoeira vermelha, mudando a cor das águas. Mas havia alguns detalhes importantes na matança. Por exemplo: não se podia ter pena do bicho, senão ele não morria. Uma vez uma amiga da minha mãe foi assistir eles matando, e ficou com pena do boi. E o boi sangrava e sangrava e sangrava e não morria. E ela ficava olhando nos olhos do boi e o boi ficava olhando nos olhos dela. O boi sangrou até a última gota e continuou em pé. Não morria. Até que o Tio Chico enfiou a faca atrás da cabeça, na nuca, na junção do pescoço. Foi instantâneo, como se desligasse um botão, as quatro patas se arriaram e a amiga da minha mãe correu pra casa chorando. Depois que matavam o boi vinha a parte que eu considerava como uma engenharia, uma verdadeira dissecação. Eles cortavam as quatro patas e a cabeça fora. Depois enfiavam dois ganchos nas pernas traseiras e erguiam o bicho. Tinha um tipo de guindaste para içá-lo. Então eles abriam a barriga do bicho e tiravam todos os órgãos, enquanto os outros – sempre eram vários – iam tirando o couro do bicho (meu avô fazia isso, era o melhor deles). Depois disso tudo eles serravam o bicho no meio, com uma serrinha dessas manuais mesmo. Aí eles passavam trabalho. Os peões suavam, uns desistiam, outros se revezavam. Tudo parecia muito divertido. Eu pedia pra serrar, às vezes. Mas eu tinha só quatro ou cinco anos e era muito magricela. Mas eles sempre deixavam. Dois peões seguravam os pedaços do boi afastados e meu avô me erguia. Eu segurava a serra melada de sangue, era uma sensação boa, de fazer parte de alguma coisa, como se aquele sangue que estava ali unisse todos aqueles homens, nos fizesse parte de algo maior, e eu fazia força, mas a serra quase nunca se mexia. Mas quando meu avô me botava no chão de novo, todo mundo dava a maior força e diziam que tinha sido quase e que da próxima vez ia e que eu tinha que comer mais feijão. Então eu ia correndo pra casa, feliz, e pedia uma caneca de caldo de feijão para a minha avó, e ela me dava e eu tomava tudo. Tinha uma textura engraçada. Parecia sangue.

9 comentários:

Dom Morais disse...

Interesante esse texto...
Gostei tb do blog
sds
Dom Morais

Dom Morais disse...

Tenho tambem umblog simples, que vou melhorar em Janeiro
http://www.dommorais.blogger.com.br

Dom Morais disse...

O link da foto não é meu blog oficial e sim umteste
o oficial é o do link citado no post anterior

Lili of the Valey disse...

Tive que parar no meio.
Fiquei com pena, é pena, sim, eu sei, eu como carne, mas sinto pena dos bois/vacas, é irônico, eu sei disso, mas mesmo assim, pena é algo que se sente involuntariamente, então não faz diferença se tu come ou não carne.
Acho que preferia quando tu escrevia a lá Bukowski mesmo.
Nunca sinto pena dos humanos.

Ryan Mainardi disse...

Ah, a miséria humana é algo muito comum. Ninguém se choca mais.

Anônimo disse...

Difícil eu comentar.. mas que surpreendente, e muito bom.
Não que eu possa falar de literatura, mas o assunto em si e o jeito que tu escreveu... Não consegui parar de ler.
É totalmente diferente, mas continua sendo tu. É o que eu achei.

tiago. disse...

gostei. bastante.

grande cara, o tio chico.

Ryan Mainardi disse...

Eu adoro o Tio Chico!

Alessandra Zelinda Bessa disse...

Enquanto a minha infância me levou a escrever " Eterno sabiá laranjeira"
a tua levou a esse texto ...

há!tio chico tinha muita fome.fato!rs