quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Compreensão

Sentei-me aqui novamente. Como nos dias de outrora. Sentei-me no mesmo lugar. As duas almofadas de couro nas costas. O tapete felpudo sob mim. A velha e conhecida dor de cabeça permanente. A dor na nuca por se debruçar horas a fio em cima de livros e cadernos sem sentido. O estômago revirado de álcool e comprimidos variados. O gosto de café amargo quase doce, com muito açúcar, na boca. O suor. O cheiro de suor. A camisa encharcada. Chegou um novo verão. Que é como os velhos verões. Todos os verões são iguais. Quentes como desertos. Quentes como o inferno. Também chegaram novas angústias e amarguras. Elas sempre chegam. Culpas severas. Dilacerando a alma em mordidas pequeninas. Segundos que se tornam minutos que se tornam horas. E as mordidas pequeninas continuam. Até que se forma um buraco enorme dentro de mim. E eu caio naquele abismo infinito de dentro de mim querendo voltar e não querendo votar e querendo me segurar e não querendo me segurar e as mordidas pequeninas continuam e o buraco vai aumentando e eu vou caindo cada vez mais fundo até me perder de vista. E quando eu me perco de vista há dois caminhos possíveis: a morte ou aquele caminho que me é desconhecido. Geralmente quando as pessoas caem tão fundo elas optam pela morte. O outro caminho parece ser muito mais difícil, parece não valer a pena tanto esforço pra voltar a esta vida miserável que temos aqui. E isto é tudo o que temos aqui: uma vida miserável. Por mais que tenhamos muito, de qualquer coisa, dinheiro ou talentos, nós somos miseráveis, por condição básica de existência, e nós temos vidas miseráveis, pois é tudo que podemos ter.

O tempo passa. Passaram-se anos e eu voltei para o mesmo lugar com os mesmos sentimentos e pensamentos. Solidão e fascínio pela morte. Afinal, a morte pode ser um fim ou pode ser um novo começo. E as duas idéias me parecem extremamente agradáveis. Fatalidade ou liberdade.

Estas percepções de hoje, por mais variadas que possam ser, não me satisfazem mais. Novas ou velhas, intensas ou superficiais, permanentes ou passageiras, a verdade é que eu estou cansado das minhas percepções. Até hoje elas só me levaram a um mesmo lugar, sempre. Este velho buraco escuro, que eu conheço tão bem, em seus mínimos detalhes, cada rachadura negra, e eu aqui, jogado pelas minhas percepções, aprisionado por mim mesmo, sozinho neste velho buraco escuro de rachaduras negras. Jogando xadrez com a morte. De quantos xeques eu conseguirei me salvar? Não sei.

Fecho os olhos e tento dormir sabendo que não vou conseguir. Minha boca seca. Penso em amores perdidos e ilusões despedaçadas. Suo, estômago e cabeça doem. Estou sozinho. Sempre e para sempre. O que há de tão glorioso em ser? Em existir? Acho que estou deixando de ser existir e talvez de viver, esperando que esta não-vida, esta aceitação de tudo que não é, me leve a algum lugar, algum lugar quase próximo de... de mim mesmo. Não há que se entender nada disso. Há que se buscar ou aceitar ou fazer qualquer outra coisa dessas que não sei se vai entender mesmo. A ação é contrária ao entendimento. O cérebro e o corpo não funcionam ao mesmo tempo. Você nunca entende porque age a sempre age sem entender. Isto é viver existir ser. E quando você opta pelo contrário, não se sabe o que acontece. Porque é assim que as coisas são. E é assim que as coisas não-são. O sentido da vida está na não-vida. E quem deseja encontrar a si mesmo deve optar por algo diferente de tudo. De tudo que existe. De tudo que é. E aí, talvez saiba. O que ninguém mais irá saber. Nunca. Assim é a vida.

Por mais que as pessoas sejam seres por demais complexos para serem entendidos, há algumas características em comum que podem ser notadas. Por exemplo: tristeza e crueldade são armadura e proteção das pessoas mais fracas, das pessoas que mais necessitam de carinho afeto compreensão aceitação essas-coisas. Quando olhamos no espelho, vemos apenas o queremos ver, não vemos o conjunto. Vemos apenas o que acreditamos ser no momento. Por isso nossa imagem no espelho é diferente a cada dia. Seja melhor ou pior. E quem vê todos os dias a mesma pessoa no espelho? Quem tem uma vida vã, inútil.

Os seres humanos são essencialmente sentimentais e isso os torna fracos e desesperados. Sentem-se incompletos, e por afobação, procuram nos outros o que deveriam procurar em si mesmos. E obviamente nunca encontram. Aí está o desespero: nas eternas buscas frustradas. A fraqueza está no sentimento em si. Sentimentos, independentemente de sua natureza, nunca são bons para as pessoas. Não dizem que anjos são seres assexuados? Pois eu digo que anjos são seres “assentimentalizados”, por isso são anjos, por isso são perfeitos. Sentimentos são o castigo que a humanidade inflige a si mesma. O mal das pessoas são muitos sentimentos e poucos pensamentos. Pensamento é produto em falta nos seres humanos.

Existe aquela coisa de se pensar diferente – para os que pensam – como forma de fuga da realidade ou fuga da existência, que na verdade não passa de uma fuga de si mesmo, uma vez que nós somos a nossa própria realidade existência, eternamente aprisionados em nós mesmos, como uma condenação: seja você mesmo. Sem direito à apelação na Corte da Vida.

Minha cabeça dói absurdamente. Tento dormir e fico pensando nas coisas ruins que me aconteceram, tentando esquecê-las. Bobagem! São as coisas ruins que realmente importam, através delas que aprendemos e crescemos. As “coisas boas” são insignificantes para as nossas vidas. Na verdade, as “coisas ruins” é que são as “coisas boas”. E todo mundo passa a vida inteira tentando evitá-las.

O problema acontece no momento em que perdemos a paciência para criar assuntos. Aquela coisa de se construir e reconstruir, dia após dia, tentando dar algo de bonito e interessante para os outros, para que pensem que a nossa companhia vale à pena, e que é melhor que a solidão, mesmo que no fundo todos saibamos que nenhuma companhia é melhor que a solidão. A solidão nos dá a chance de conviver com nós mesmos, uma convivência muito mais intensa que qualquer outra. E muito mais válida. Houve uma época em que eu gostava de pessoas ao meu lado. Quase me lembro a razão. Como eu era ingênuo.

E tem aquela coisa de Ler Clarice e chorar. Sentir aquela agonia doída de viver. E pensar. Desvendar a alma humana em todas as suas baixezas e se ver dentro de tudo isso. Perceber que há inúmeras possibilidades, eternas promessas vazias feitas por nós para nós mesmos, mas não há fuga. Perceber que podemos passar a vida sem nos conhecermos, e que mesmo assim, não conseguiremos fugir de nós mesmo. É aquela coisa de verter sentimentos em lágrimas e pensar até a exaustão em uma solução que não existe. É viver. E se saber vivo, pessoa, ser humano. Sendo e existindo. Imundo de corpo e alma. Buscando o vazio por não agüentar mais a exaustão das agonias de viver existir ser sentir. Por isso: eu choro.

Tenho sentido muitas dores de cabeça ultimamente. Mais que o normal, mais intensa que a minha dor-de-cabeça-permanente. Na parte de trás da cabeça, como se o cérebro quisesse explodir pela nuca. E talvez queira. Afinal, deve estar exausto e fatigado. É por isso que insiste em me dizer: “Por que você não pode ser como as pessoas comuns e me deixar em paz?” Desculpe-me, não posso. Preciso de você, o tempo inteiro, não exploda ainda, ainda temos um caminha à trilhar, agüente firme ao meu lado – ou na minha caveira – companheiro fiel, seremos eu e você que traremos alguma luz à esta escuridão perpétua que envolve à tudo e à todos, e acordaremos os seus companheiros descansados. Ou pelo menos tentaremos. Daremos o melhor de nós... até o fim.

As obviedades que me matam. A subjetividade que me salva.

De certa forma, a dor é o que nos faz sentirmo-nos vivos. E o medo. E a raiva. E o ódio. E todos os sentimentos ruins. Os bons também, mas não com tamanha intensidade. Todos queremos viver, é bom, é um êxtase. O que eu quero dizer é que viver vicia. Sentir vicia. E neste tipo de vício as drogas mais pesadas são o medo, a dor e o ódio. Sucessivamente. Primeiro vem o medo de que algo ocorra, depois a dor por ter ocorrido, e por último, o ódio do motivo pessoa que fez ocorrer. E pronto: sente-se vivo. Está viciado. Em viver. E em sofrer. Pois a forma mais intensa de se viver é sofrendo. E é a dor que sempre fica, cicatriz marcada a ferro e fogo na alma, para sempre, que lateja nos dias de melancolia.

Tenho uma alma muito pesada. E por mais que eu tente, não consigo fugir à isto. Não consigo livrar-me deste peso. Eu sou este peso escuro dolorido. Então, o que me resta? Parar de tentar fugir. Aceitar-me. Por pior que seja. E esperar que isto tudo meio embaçado que sou eu me leve a algum lugar. A uma compreensão. A mim mesmo. A mais um eu, escondido em outra profundidade mais profunda, um eu mais escuro e mais sábio, para juntar-se à todos os outros eus que já habitam em mim.

3 comentários:

Ryan Mainardi disse...

que coisa doida.

Anônimo disse...

Perfeito...

Só não se renda a essa vontade suicida, senão quem irá despertar leves tendências à promiscuidade? hahaha

an disse...

adorei.
infelismente ou felizmente, é sempre preciso aceitar-se. Se vc nao acolher a si próprio, é difícil alguem faze-lo por ti.
te gosto