sábado, 3 de novembro de 2007

Cena 1 – O Diálogo (by Ryan & Pam)

Bate na porta.

Ele: – Tá aí?

Ela: – Ahm... Acho que sim...

Ela sorri por trás da porta.

Ele: – Acha? O que que tu tá fazendo? Ele tá aí?

Ela sorri de novo.

Ela: – Não. Ele tá viajando...

Ela sorri ainda mais, e se segura para não gargalhar, escorada com as costas na porta.

Ele: – Hum... O que que tu tá fazendo? Não vai dormir? Não vai sair?

Ela: – Não... Adivinha...

Ela sorri. Chama seu nome três vezes.

Ele: – O quê?! O quê?!! O quê?!!!

Ela abre a porta. Eles se abraçam e se beijam no rosto. Vão para a sala e sentam-se no sofá macio. Há uma garrafa de vinho pela metade e duas taças na mesinha de centro.

Ele: – Vinho! Vamos beber... E vamos aproveitar a noite que não traz nada de bom... A noite vazia parada entediante...

Ela: – Ai meninooo!!! Tô fazendo a análise daquele livro, tu não lembra...

Ele: – O quê? Vamos beber vinho gelado e esquecer a falta de corpos quentes...

Ela: – Eu estou em casa fazendo trabalho. Amanhã eu tenho que acordar às oito da manhã e viajar pra ir ver o meu avô que está no hospital. Vou ter que ficar lá até domingo. Sábado vou visitar minha amiga. Não dá pra beber hoje!!!

Ele: – Então não vai amanhã... Tu nem quer ir... Por que tu faz coisas que não quer? Não faz sentido... Então conversa comigo até a manhã chegar... Me conta a tua vida... As tuas desilusões passadas, os teus medos futuros... Os teus desesperos presentes... Me conta tudo!!! Ou não...

Ela passa a mão devagar no rosto dele.

Ela: – Hey... O que foi menino?

Ele: – Nada não... Só desespero sei lá de quê...

Ela: – Hum...

Ele: – Eu só queria um pouco de... Algo que eu não tenho...

Ela: – Hum... Só não fica achando que tu é o único a se sentir assim... Porque não é.

Ela sorri pra ele.

Ele: – É que eu to me encontrando comigo de novo... E isso é... Desesperador... Eu tinha me esquecido de mim mesmo... E estava tudo naquela calma entediantemente serena... E daí, eis que no meio de uma taça de vinho, eu me deparo comigo mesmo, e o pânico vem. E agora o que faço?

Ele olha para ela com desespero.

Ela: – Se aceite.

Ele: – “Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”, saca? Tudo isto que sou eu é tão... Absurdo... E dolorido... Eu sou desespero... Todo eu...

Ela: – Todos somos... Mas você não consegue ver dentro de todos... O absurdo é a vida... Pra mim pelo menos...

Ela olha para a janela com um olhar melancólico.

Ele: – Não! O absurdo somos nós! A vida é fácil... Nós que não nos encaixamos nela... Provavelmente porque pensamos...

Ela: – É... Pode ser... Eu não acho que devamos pensar muito... O muito nos faz absurdos... Ou sei lá também...

Ele: – Não é questão de muito ou pouco, é pensar! A vida não foi feita pra pensar. É o pensar que nos destrói... Nos desespera... Mas ao mesmo tempo... Nós somos o que pensamos... É tudo que nos resta... Então ficamos neste eterno dilema: viver ou ser?

Ela: – Sim... E por que tu pensa nisso então?

Ele: – Eu já fiz a minha escolha. Eu não vivo. Eu sou... E o que me resta se todos os outros vivem enquanto eu sou?

Ela: – Então não é hora de parar de pensar? Se a escolha está feita... Mas eu não acho que esteja...

Ele: – Não tem volta. Eu já fui longe demais, eu já fui fundo demais... Não tem volta pra mim... E mesmo que tivesse...

Ela: – Tu não quer.

Ele se desespera.

Ele: – O que eu poderia querer do mundo?! E das pessoas?! Não quero nada... Eu sou o desespero. E mais nada. Eu não pertenço ao mundo.

Ela: – Tu tá te fazendo assim... Tu não é assim...

Ele: – Não sei... Sinto aquilo que não consigo explicar... Mas não é bom... Nunca é bom... Não pra mim...

Ela: – Ninguém explica o que sente.

Ele: – Eu não nasci pra ser feliz, esta é a verdade. É fato consumado. E que assim seja.

Ela: – É tu que tá dizendo... É tu que tá fazendo ser assim...

Ele: – Sou eu que sou... O tédio da vida consome. O pensamento transcende e salva. Felicidade é ilusão... Tudo o que existe são perspectivas, pontos de vista... Não há realidade...

Ela: – É... E tu sempre escolhe a pior perspectiva... O pior ponto de vista... É tu que escolhe a tua vida... E no fundo tu sabe que ela não é tão ruim... E que tu não é tão ruim... E que todos sabem disso...

Ele: – Eu sou uma pessoa horrível... Mesmo que tu nunca admita... Ou saiba de verdade... Eu sei que bem lá no fundo tu consegue sentir... Eu sou uma pessoa horrível...

Ela levanta-se violenta.

Ela: – Tu vai ficar com este sentimento de culpa pra sempre?! Eu sei que tu não é assim como tu fala!!! Tu criou isso e acredita!!! Mas tu não é!!!

Ele: – Culpa não existe. Não me sinto culpado. Eu apenas sei o canalha que sou. Não por fatos que aconteceram. Mas pelo simples fato de eu ser eu mesmo. E saber disso.

Ela: – Isso não...

Agora ele levanta-se violento.

Ele: – Eu sou uma pessoa horrível!!!

Sentam-se. Pegam as taças. Bebem o vinho.

Ele: – “Tu já pensou nos átomos. E no espaço entre os átomos. É nada. Nós somos feitos de nada. Tudo é feito de nada. Tudo não existe. Nós não existimos.”

Ela: – É... De que me serve isso?

Ele: – Para eu me esquecer de mim mesmo... Vai dormir pra ir ver o teu avô amanhã...

Ela levanta. Anda até o início do corredor que dá para os quartos.

Ele: – Mas guarda esta conversa... Tu pode precisar um dia...

Ela: – Pra que pensar nisso? É uma merda... De qualquer jeito...

Ele: – “De qualquer jeito...”

Ela: – É... E daí? Não resolve nada mesmo...

Silêncio.

Ele: – O vinho acabou... Tu precisa dormir... Vou pra casa tomar um banho quente...

Ela: – Até um dia...

Beijam-se no meio da sala.

Ela: – Não esquece de mim...

Ele: – Nunca...

Eles se afastam. Ela para na entrada do corredor que dá par os quartos e olha para ele. Ele para em frente à porta do apartamento e olha para ela.

Ele: – Dorme bem... E não pensa em mim... Boa noite...

Ele manda-lhe um beijo.

Ela: – Hey... Eu te adoro, sabia?

Ela sorri cansada.

Ele: – Eu te amo...

Ela sorri, mais uma vez, com ar cansado e compreensivo.

Ele: – Dorme bem...

Ele sai e fecha a porta. Ela entra pelo corredor. A sala fica vazia, como a garrafa de vinho em cima da mesa.

5 comentários:

Ryan Mainardi disse...

Advertência: Esta história é baseada em fatos reais. Mas esta adaptação, seus personagens, partes de seus diálogos e os acontecimentos são fictícios. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Pamy disse...

quero meus direitos autorais!!!!
xP

Advertência[2]: a "coautora" não sabia da publicação do texto né Ryan?? ^^ .. nem que seria um texto.. ou conto..

Ryan Mainardi disse...

a surpresa é a melhor parte... ^^

tf disse...

“Tu já pensou nos átomos. E no espaço entre os átomos. É nada. Nós somos feitos de nada. Tudo é feito de nada. Tudo não existe. Nós não existimos.”

metade dos direitos desse parágrafo é meu

=p

Ryan Mainardi disse...

por isso que ele tá entre aspas... saca?

=P